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terça-feira, 2 de março de 2021

FRAGMENTO DO LIVRO-O OUTRO LADO

Naquele ano as andorinhas  excederam em quantidades, a cidade se povoara delas, pois com certeza vieram de imenso país, onde os rigores da estação também se excederam.
Elas se ajeitaram como puderam nos galhos das árvores, nos fios, nos postes e em todos os lugares.
Claro que a cidade não comportara tantos passarinhos de uma vez, mas fora a escolhida por elas.
Então trataram logo de expulsá-las, ou melhor exterminá-las, devido ao mau cheiro causado pelos excrementos destas.
A cidade logo ficara deserta de pássaros e tudo voltara ao normal.
Foram lavados os bancos das praças, as ruas também e tudo rapidamente ficara higienizado.
Eu era criança e sentira falta daquela penca de tesouras pousadas no fio, ao entardecer.
E não entendera porque, uma delas ficara perdida no meio da cidade, voejando de um lado para outro procurando seu bando e dormindo em qualquer galho ou fio.
Aquela pequena andorinha tão só,me causara comiseração, então quando voltara das aulas com as outras crianças, eu a vira virando a cabecinha de lado para nos olhar, pousada no fio.
Eu ficara imaginando como pudera se sentir aquele pequeno ser, que relutara pela vida juntamente com outros tantos, que se foram e ela ficara.
Ser uma andorinha não deve ser fácil, porque as andorinhas, assim como os pardais e as pombas brancas, gostam de viverem perto das pessoas.
E entre as pessoas, quase todos se declaram protetores de animais, porém matam uns, comem outros e outros beijam na boca.
Aquela intrigante andorinha ficara sozinha e encolhida quase o tempo inteiro, dia após dia.
Quem sabe, imaginara eu, ela não conhecera um bando de pardais, ou de pombas?
Porém a cidade estava desertada de pássaros, embora houvera nesta uma sociedade protetora dos animais.
Todos os dias eu passara um bom tempo observando a pobre andorinha, e em silêncio parecêramos quase nos comunicarmos alguma coisa.
Um dia, sentada no banco, jogara umas migalhas de pão e ela fazendo um certo movimento com o pescocinho,olhara, olhara, depois alçara um voo rente e pousara no chão.
E como num balé elegante, ensaiava os passinhos miúdos catando migalha por migalha.
Nossa!
Que felicidade!
Ela entendera nossa comunicação, pelo menos comida e companhia, prometi a mim mesma que não lhe faltaria.
E toda tarde ela se fartava de migalhas de pão, chegando cada vez mais perto.
Até que um dia, ela se chegara bem pertinho e eu lhe passara a ponta dos dedos bem de leve, fora um momento difícil talvez para ela, ceder-me um toque, quando minha mão tivera o tamanho de seu corpo.
No entanto parecera não haver diferença entre nós, todas as arestas foram aparadas a partir daquele dia,e como todo ser humano é possessivo, eu dissera:
Agora eu tenho uma andorinha!
Ou melhor...
Pensando bem.
A andorinha é que me tem.
Porque o que me adviera dela, sempre fora de maneira simples, porém ilibada.
Aquela pequena praça houvera se tornado para mim,um pedaço do céu, e somente eu notara que houvera uma andorinha morando nesta.
Ela precisara perpetuar sua espécie talvez, mas por outro lado também pensara:
Não!
Os seus filhotes seriam todos escorraçados, como fora todo o bando.
Meu nome Clarice, morava numa casa bem em frente a simplória pracinha e ia para a escola bem de manhã e guardara uma boa parte de meu pão para minha amiguinha querida.
Quando eu voltara da escola, antes colocara todo farelo de  pão num ponto estratégico e a vira pulando de galho em galho até saltar ao chão em passos de balé.
E o pescoço indo e voltando em movimentos ritmados até o papo ficar cheio e meio de lado.
Eu ia para casa feliz,pois em minutos o meu dia fora compensado,e á tarde num disfarce qualquer,eu viera ás vezes fazer-lhe companhia.
Ela parecera se afeiçoar a mim também,ficara quietinha me olhando,sempre dobrando a cabeça de lado.
Eu ficara sentada e ela voara de um galho para outro até de fazer visível, pousada no fio.
Eu plantada no chão e a pequena andorinha pousada no fio, como pudera esta, interpretar minha presença .
Jamais soubera,mas eu apenas me tornara talvez,seu meio de sobrevivência,sendo que esta tivera muito mais que tal,para me oferecer.
Eu apenas tivera farelos de pão,mas ela simplesmente, fora um encanto em minha vida.
O silêncio pairava entre nós,porém uma certa comunicação se estendera no ar,ela confiara em mim,e eu a amava.
O meu lado criança ainda não deturpado pela educação,se equiparara a este pequeno ser,porém tão cativante.
Porque resolvera ficar?
Quando a invernia dobrara as esquinas,eu a vira com a cabecinha entre as asas tão solitária e tristonha.
Ela sozinha houvera feito meu verão,porém estivera sendo arrebatada pelos zumbidos dos ventos gélidos.



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Obrigada pelo carinho!
Izildinha