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quarta-feira, 3 de março de 2021

FRAGMENTO DO LIVRO_O OUTRO LADO

Mesmo assim, impulsionada como somos pela vida, ela descera das árvores para catar as migalhas de pão.
Eu vivera tão desmotivada apesar de minha pouca idade, portanto jamais entendera o motivo ou razão.
Fora uma criança estranha, assim como uma andorinha que não condizia com o bando, ficara perdida na imensidão do mundo.
Eu sentira que tudo fora tão imenso, para uma apoucada andorinha, e eu me sentira imensa mediante a ela, e ínfima mediante o mundo.
Todos os dias, ela permanecera no mesmo lugar após a chegada do inverno, chovera muito e entre as asas, esta se mantivera escondida.
Eu carecera de um incentivo para viver, e no entanto, a andorinha, apenas vivera todos os dias do mesmo jeito.
Nós humanos precisáramos de alegorias para exibirmos felicidade, mas a andorinha jamais mostrara coisa alguma, fora assim como sua vida quisera.
Jamais recusara as migalhas, então supunha não estar doente, embora nós humanos, jamais tivéramos como doenças, os achaques da alma, mas sim os ferimentos e dores do corpo.
Eu fora mais longe em minhas conclusões, e pensara na luta pela sobrevivência, houvera visto um filme de Vitor Hugo “Os Miseráveis” e associara nem sei porque, na luta pela sobrevivência.
“Dorme. Viveu na terra em luta contra a sorte 
Mal seu anjo voou, pediu refúgio à morte
O caso aconteceu por essa lei sombria
Que faz que a noite chegue, apenas foge o dia!”
Recorrentemente, eu não vira nenhuma tristeza, e também nenhuma alegria em tal ser.
Apenas sobrevivera ao que fora, um predestinado deserto em forma de cidade humana.
Começara a me sentir responsável por tal criatura e no entanto, era um segredo apenas meu, pois jamais soubera a reação de alguém, quando o bando todo fora exterminado.
Apenas, ocupáramos mais espaço, pelo nosso tamanho corpóreo, mas sempre fôramos de uma dependência incrível, pelo menos os urbanistas.
Eu ouvira histórias de pessoas, bem mais auto suficientes, que se refugiavam numa modesta casa no campo, sem temerem a escuridão da noite, porém seus olhares foram observatórios na abóbada celeste, assim como os amanheceres empoeirados traziam uma tonalidade rosa, e nos entardeceres o sol piscava lentamente envolvido numa tonalidade ocre.
Mas aquela andorinha era urbana, e gostara de se manter perto das pessoas, caso contrário, já houvera fugido para um campo qualquer.
O inverno aquele ano fora rigoroso, eu vira pela janela orvalho virando neve e bem no meio da praça, numa árvore de médio porte um ponto escuro estático e encolhido, esperando a vida passar.


Um comentário:

  1. Pelo fragmento, o livro deve ser interessante. Li outros posts do seu blog. Gostei. Abração..

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Obrigada pelo carinho!
Izildinha