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sábado, 17 de novembro de 2018

DESPEDIDA[DO LIVRO-O QUE O TEMPO LEVA]

Eu entendera que se eu não tomasse uma atitude, eles usariam a minha existência para abrandar os fatos e simplesmente viveriam um romance clandestino embaixo de meu nariz, me chamando de pueril.
Eles olharam os dois para mim,estancaram a conversa e eu com uma ponta de ironia disse:
Gustavo á noite vai preparar um jantar, aí conversaremos, nada de tão importante, levantei e fui tomar um banho, largando os dois na sala.
Tranquei bem meu quarto, sempre fui muito prática com minhas roupas, tendo peças coringas que podiam modificar meu visual, arrumei minhas malas, e deixei-as escondidas.
Tomei um banho maravilhoso, lavei meus cabelos parecia que nesse banho eu estivera lavando a alma.
Com toda calma do mundo me arrumei, e como uma estranha, saí pela rua andando naquela tarde, me despedindo de mim mesma.
Entardecia paulatinamente em meu coração, em cada rua, em cada esquina, em cada momento de meu ser,eu caminhava sem dor, sem amor, sem saudade, sem desculpas.
Era como se fosse a última tarde de uma fechada de ciclos ou temporadas, talvez uma última tarde de outono, e eu conduzindo apenas "o que o tempo leva”.
O tempo me levara também, mas aos poucos, devagar como precisara ser,eu sentira uma infinidade de vidas em minha vida.
Eu e minha criança apenas, era como se o vento viesse me dizer alguma coisa, aquele ipê aparentando uma mão ressequida erguida para o alto me acenando...
Senti que deixaria boa parte de mim ali, mesmo não querendo, pois fora um palco onde eu atuara em solidão acompanhada, muito tempo.
Seria saudade por antecipação?
Não respondi:
Se bem me conhecera,eu sempre esperara esgotar os últimos recursos, esperara meu coração determinar a partida sem dor, sem alegrias, sem sentimentos, uma vez que sempre fui muito sensível, então isso não me convinha, e meu coração sabia, pois sempre o ouvi, rezingar isso á razão.
A tarde levitara mansa dentro de mim e simultaneamente ao meu redor..
Sentara no banco da pracinha em frente ao condomínio de classe média onde eu habitara minha vida inteira, até então e sentira rodopiando um vento um pouco mais gelado prenunciando o inverno.
Pois é, inverno não tardaria a  chegar, só que desta vez, como andorinha fugindo dos rigores da estação, voaria para outras paragens.
A noite fora achegando aos poucos e uma estrela única no meio de uma nuvem escura faiscara no céu, apenas uma estrela ainda, pois a noite pulsava, como criança recém nascida.
E juntamente com essa criança, minha determinação brotando verdinha e cheia de esperança, rompendo o lacre do asfalto tosco e cruel, em que vivera até então.
Jamais soubera, quando eu levara  o olhar para passear por aquelas cercanias, se fora a última vez, mas desta feita, não tivera dúvidas.
Observando cada esquina, não quisera levar mais nenhuma lembrança, apenas do espaço físico, eu precisara me despedir, uma vez que fora este, meu ponto de vida, minha referência destinatária, onde aos poucos fora mudada minha fisionomia jovem e encantada pela vida, abraçando os percalços que agora me amparando e fortalecendo na partida.

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Izildinha