Gostava
das manhãs, quando eu estivera na escola.
Eu
sentira um amor muito profundo pela nossa professora Dora, uma moça magrinha de
olhos azuis e pele bem clarinha, cabelos curtinhos, ela parecia um verdadeiro anjo de
bondade.
Quando
acertávamos a lição ela punha parabéns!
Nossa!
Isso
para mim sempre fora um elogio importante, pois nunca fora acostumada com isso
em minha casa, sendo invalidada em tudo que sempre fazia, acabara me
conformando com uma incapacidade doentia e inventada.
A rua
da casa onde eu residia com minha mãe Lídia, meu padrasto Artur e meu irmãozinho Rodrigo, realmente era para mim, um tipo de extensão, de
onde eu saíra da consternação para o paraíso, quando me era dada permissão,
para ir á rua, brincar com outras crianças.
Era
uma rua simples ,porém muito acolhedora que parecia se estender além de minha
casa, pois as esquinas traziam deliciosas raspadinhas, que uma ou outra colega
sempre deixara um restinho no copo, ou então dividira em dois copinhos.
Fazíamos
nossos desenhos com cacos de tijolos no
meio da rua, e quando aparecia um carro, a velocidade era tão lenta, que dava
tempo nos recuarmos.
Aquela
rua era ornamentada com casas mais altas, e flores trepadeiras nas sacadas,
caindo pelos muros, deixando pétalas murchas nas calçadas.
Era uma rua desertada, quase sem movimento
algum, estávamos mais para uma cidadela, do que um bairro da grande São Paulo,
os carros que por ali transitavam, tinham um ar de enfadados, e enferrujados
pelo tempo, fazendo grande barulhão, que me acordavam todo os dias ás quatro da
manhã, estourando seus escapamentos, principalmente em época de frio.
Eu
gostara sempre de acordar mais cedo e ouvir os passarinhos que á noitinha e
logo de manhã faziam algazarras nas trepadeiras das casas.
Eu
não sabia onde eles dormiam, mas era de praxe o festival ao entardecer e também
ao amanhecer.
Os
passarinhos jamais deixam um dia sequer passar despercebido por eles, que fazem
festa talvez agradecendo a Deus pelas árvores, pelas plantas, pela vida em
cadeia aqui na Terra.
Portanto,eu amara
aquela rua, aquele povo tão acolhedor, aos quais eu considerava também uma
expansão de minha família, com um requinte a mais sempre, o calor humano, a
consideração.
Brincávamos
muito de amarelinha e também de pular corda.
Arrumáramos
uma porta velha,
que fora ao lixo jogada, limpáramos direitinho e fizemos dela uma lousa, e
com caco de tijolos fazíamos nossos desenhos, escrevíamos nossos diários, que
depois eram apagados, pelo orvalho da noite.
E quando voltávamos no outro dia, nossa
lousa verde, parecia inundada de lágrimas escorridas sobre nossos desenhos, e
escritas.
Limpávamos
tudo de novo e recomeçávamos a escrever.
Houveram
dias, em
que eu não pudera ir brincar, pois havia muita coisa em minha casa para fazer e
só terminara á noite.
Então,
depois do banho, fazer meu irmãozinho dormir, jantar e fazer as tarefas da
escola.
Meu padrasto, ás
vezes, chegava
bêbado e brigava muito com minha mãe, então eu me deitava, e
ia dormir sem jantar.
No
outro dia tudo parecera voltar ao normal e quando eu saia para as aulas, os
deixava conversando normalmente,
como se nada houvesse acontecido, minha
mãe de certa forma era conivente com aquela situação.
Mas o
fato de meu padrasto voltar bêbado para casa, sempre mexia com meus medos,
minhas angústias, quando eu percebera,
que ele houvera
saído de casa, já ficava apreensiva pela
sua volta, ao passo que ela parecera sempre se manter tranquila quanto a isso.
Ás
vezes uma amiguinha, que
morava do lado de minha casa vinha me perguntar alguma coisa sobre as tarefas
da escola, mas mediante a intolerância de minha mãe, logo ela se retirava, e
eu começara a torcer para que ela fosse mesmo, logo embora antes que alguma
coisa estranha sucedesse.
Eu
começara a ser uma garota chata,que não gostara de receber visitas, por medo de
que houvesse algum desentendimento dentro de minha casa na frente de minhas
amigas.
Fora
me tornando uma garota solitária, que obviamente sonhara em encontrar um dia,
um ombro amigo para confidenciar nossos segredos, nossas maneiras de ser.