Rafaela
fora um ser sem definição, em minha vida, ela fora colocando amor em todos os
vãos vazios, de minha existência, fora como uma fada bordando e cerzindo, uma
linda vestimenta de cetim rosado, para acobertar toda falta de amor.
Ela
costurara ponto por ponto,
a esperança em minha vida, e todas as
vezes, em que eu chorara, ela tivera um avental também bordado, com um cheiro
característico de margaridas, para me enxugar o rosto.
Depois,
colocava uma caneca de ágata pequena, em minhas mãos, cheia de café quentinho e
adocicado, tão delicioso, como ninguém soubera fazer.
E
quando eu mais calma, ela sentara ao meu lado, colocara sua mão leve, em minha
cabeça, e contava mil histórias, as vezes ,fora histórias tristes, mas ela
sempre dava um jeito, para um final feliz.
E em
um quarto de hora, quando meu desespero estivera no auge, ela simplesmente,
sempre me fizera sentir, a menina mais feliz do mundo.
Entendera
mais tarde então, que quem tem a
felicidade, de encontrar uma Rafaela na vida, simplesmente pode ser mesmo, a
pessoa mais feliz do mundo.
Concomitantemente,
depois do café, íamos para o quintal, onde ela
fizera o mais lindo jardim,
cheio de canteiros de margaridas.
Eu
nunca perguntara á Rafaela sobre sua vida, porque nem via necessidade, ela fora
um livro, com uma página,
sempre a ser lida,
no momento certo.
Quando
minha família viajava, eu dormira tranquila em sua casa, e nem tinha vontade
que terminassem as férias.
Ela
bordava chinelos de cetim, com pérolas coloridas, e eu tinha muitos deles, ela
sempre me presenteara.
E aos domingos, ela tinha uma banca, numa
feirinha de produtos artesanais, para expor e vender seus lindos chinelos de
quarto, bordados delicadamente ,por mãos tão habilidosas.
A
vida devia ser muito difícil para ela, sempre sozinha e nunca sequer tocara no
nome de alguém, parece que Rafaela nunca sentira tristeza, saudade ,ou coisa
assim.
Ela
nunca pronunciara o nome de ninguém, jamais dissera se amara alguém, naquela
época eu era apenas uma criança, depois uma adolescente precisando de seu
amparo e nada tinha para ampará-la.
Ela
devera ficar sozinha em seus momentos.
Quando
ela estivera bordando,eu até procurara, aprender a bordar, mas
minhas mãos tremiam muito, e eu mal conseguira segurar, aquela finíssima
agulha.
Ela
sempre justificara dizendo:
Certamente
Augusta, tens outras habilidades, as quais eu não tenho, depois concluíra.
Em
partes somos iguais, mas necessariamente diferentes, quando Deus nos criou
,pensara nessa particularidade.
Imagine
todas as pessoas realizando as mesmas coisas?
Concluíra.
Embora
não seja uma arte, saber bordar chinelos, mas é uma habilidade, que pode sim,
assim como outra qualquer, quando com capricho, ser transforada em obra de
arte.
Amo
os chinelos que faço, eles geram grande satisfações a mim.
Dissera
ela.
Eu
ficara um tempão, conversando com ela ,enquanto bordava seus chinelos, depois,
eu os colocava dentro de uns delicados saquinhos transparentes, amarrados com
fitinhas de cetim.
Após
estarem prontos, realmente ficavam espetaculares.
Margaridas
eram suas flores preferidas, ela tinha canteiros, que refloresciam o ano
inteiro no jardim, e de várias cores, e também elaborava lindas margaridas, nos
chinelos, com fitinhas de cetim, todas enfeitadas de pérolas.
Eram
colírios curativos para meus olhos, quando eu não sabia, quais eram mais
encantadoras, as margaridas do jardim, ou as margaridas bordadas nos chinelos.
E
cada segunda feira da semana, ela recomeçava tudo de novo, pois seus chinelos
eram todos vendidos, principalmente em épocas, ou datas especiais.
Rafaela
fora aquele livro, que eu soletrara letra por letra,
e todos os dias, cheia de amor.
Fora
a história mais linda de amor incondicional,
que eu pudera vivenciar.
Sentia
nela uma grande afinidade, talvez fora, pelo amor que em mim emanara, pelas
conversas informais que tínhamos de igual para igual, ela uma senhora e eu uma
criança.
Acredito
que ela aparara todas as arestas entre nós, em nossos momentos para que
ficássemos nos mesmos patamares.
Eu
sempre dera um jeito de passar pela feira aos domingos para vê-la.