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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

FRAGMENTO DO LIVRO_VOZ DE TROVÃO

Rafaela fora um ser sem definição, em minha vida, ela fora colocando amor em todos os vãos vazios, de minha existência, fora como uma fada bordando e cerzindo, uma linda vestimenta de cetim rosado, para acobertar toda falta de amor.
Ela costurara ponto por ponto, a esperança em minha vida, e todas as vezes, em que eu chorara, ela tivera um avental também bordado, com um cheiro característico de margaridas, para me enxugar o rosto.
Depois, colocava uma caneca de ágata pequena, em minhas mãos, cheia de café quentinho e adocicado, tão delicioso, como ninguém soubera fazer.
E quando eu mais calma, ela sentara ao meu lado, colocara sua mão leve, em minha cabeça, e contava mil histórias, as vezes ,fora histórias tristes, mas ela sempre dava um jeito, para um final feliz.
E em um quarto de hora, quando meu desespero estivera no auge, ela simplesmente, sempre me fizera sentir, a menina mais feliz do mundo.
Entendera mais tarde então, que quem tem a felicidade, de encontrar uma Rafaela na vida, simplesmente pode ser mesmo, a pessoa mais feliz do mundo.
Concomitantemente, depois do café, íamos para o quintal, onde ela  fizera o mais lindo jardim, cheio de canteiros de margaridas.
Eu nunca perguntara á Rafaela sobre sua vida, porque nem via necessidade, ela fora um livro, com uma página, sempre a ser lida, no momento certo.
Quando minha família viajava, eu dormira tranquila em sua casa, e nem tinha vontade que terminassem as férias.
Ela bordava chinelos de cetim, com pérolas coloridas, e eu tinha muitos deles, ela sempre me presenteara.
E aos domingos, ela tinha uma banca, numa feirinha de produtos artesanais, para expor e vender seus lindos chinelos de quarto, bordados delicadamente ,por mãos tão habilidosas.
A vida devia ser muito difícil para ela, sempre sozinha e nunca sequer tocara no nome de alguém, parece que Rafaela nunca sentira tristeza, saudade ,ou coisa assim.
Ela nunca pronunciara o nome de ninguém, jamais dissera se amara alguém, naquela época eu era apenas uma criança, depois uma adolescente precisando de seu amparo e nada tinha para ampará-la.
Ela devera ficar sozinha em seus momentos.
Quando ela estivera bordando,eu até procurara, aprender a bordar, mas minhas mãos tremiam muito, e eu mal conseguira segurar, aquela finíssima agulha.
Ela sempre justificara dizendo:
Certamente Augusta, tens outras habilidades, as quais eu não tenho, depois concluíra.
Em partes somos iguais, mas necessariamente diferentes, quando Deus nos criou ,pensara nessa particularidade.
Imagine todas as pessoas realizando as mesmas coisas?
Concluíra.
Embora não seja uma arte, saber bordar chinelos, mas é uma habilidade, que pode sim, assim como outra qualquer, quando com capricho, ser transforada em obra de arte.
Amo os chinelos que faço, eles geram grande satisfações a mim.
Dissera ela.
Eu ficara um tempão, conversando com ela ,enquanto bordava seus chinelos, depois, eu os colocava dentro de uns delicados saquinhos transparentes, amarrados com fitinhas de cetim.
Após estarem prontos, realmente ficavam espetaculares.
Margaridas eram suas flores preferidas, ela tinha canteiros, que refloresciam o ano inteiro no jardim, e de várias cores, e também elaborava lindas margaridas, nos chinelos, com fitinhas de cetim, todas enfeitadas de pérolas.
Eram colírios curativos para meus olhos, quando eu não sabia, quais eram mais encantadoras, as margaridas do jardim, ou as margaridas bordadas nos chinelos.
E cada segunda feira da semana, ela recomeçava tudo de novo, pois seus chinelos eram todos vendidos, principalmente em épocas, ou datas especiais.
Rafaela fora aquele livro, que eu soletrara letra por letra, e todos os dias, cheia de amor.
Fora a história mais linda de amor incondicional, que eu pudera vivenciar.
Sentia nela uma grande afinidade, talvez fora, pelo amor que em mim emanara, pelas conversas informais que tínhamos de igual para igual, ela uma senhora e eu uma criança.
Acredito que ela aparara todas as arestas entre nós, em nossos momentos para que ficássemos nos mesmos patamares.
Eu sempre dera um jeito de passar pela feira aos domingos para vê-la.