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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

LEMBRANÇA[DO LIVRO_O QUE O TEMPO LEVA]

Todas as vezes, em que me sentira sozinha comigo mesma, pensara em tudo que me beneficiara, tudo que eu dispunha ao meu redor, então era impossível admitir solidão em minha companhia.
Ás vezes, até tentava dialogar com ela, e saber o que ela pretendia de mim,pois eu já não tinha mais nada a lhe oferecer, e se em algum lugar do passado,eu a acolhi, em algum compartimento de meu coração, este certamente já estaria locado para a alegria, satisfação, ou mesmo saudade, porém a solidão, já não fazia mais parte de minha vida.
Quando sozinha, procurara voltar, e rever as belezas engavetadas dentro da memória, que aquela tímida e feia menina havia me recomendado.
Encontrava a poesia...
Sim, eu abrira devagar todos os mimos, e ainda pudera sentir o perfume inconfundível das flores silvestres, das roseiras de meu pai, e até o perfume meio amargo das flores amarelas da antiga trepadeira dominando o jirau.
Correra rapidamente o olhar pelo quintal e ainda vira com o coração partido, minha mãe lavando um tanque cheio de roupas.
Vira meu pai fazendo contas e somando as reservas, também fazendo a lista de compras.
Lembrara da minha pequena cidade ,cravada numa planície onde o sol se fazia exuberante, desde o amanhecer, até o entardecer.
Lembrei de meu querido irmão, da depressão de meu pai, mas a poesia pegando em minha mão, pedira para que eu rabiscasse alguma coisa,silenciosamente,tranquei a gaveta da inspiração...
Porque esse momento,era apenas para mim,uma série de movimentos, tudo fintara tão concreto, e eu não queria pular para a abstração.
Todas as pálidas imagens, um pouco só desbotadas, em função dos milênios, mas eu estava ali, onde não mais cabia a solidão, apenas recordações, nem totalmente alegres, nem totalmente tristes, mas sim, um bagageiro repleto de segredos e recordações, que de vez em quando, e quando podia, eu voltara para contemplar.
Eu sempre procurara retirar alguma coisa, algum espinho que ainda machucara, pois não queria sofrer duas vezes em tempos diferentes, pelas pedras, que livremente eu resolvera carregar comigo,pelos espinhos, que ainda eu não eliminara totalmente.
Essa viagem onde visitamos nossas lembranças, faz com que nos livremos dos inimigos internos, que são os resquícios dos medos, das tristezas, das fobias, das inseguranças e também do sentimento de culpa.
Eu, apesar de tudo, ainda continuava sendo a mesma, em alguns aspectos, porque ao longo da vida, existem dias em que estamos mais fortes e em outros, mais vulneráveis.
Lembrando dos momentos de dificuldade, enfatizara em mim o quanto era feliz no presente, pois simplesmente aprendera avaliar o que era uma coisa, em função da outra.
Era finalzinho de inverno e um vento frio ainda varria meus quintais internos, minhas varandas,enfim,quase todos os meus compartimentos.
 Espiando agora, pela janela do apartamento pudera ver o movimento açodado, de uma tarde no meio da semana, em uma grande metrópole, senti meu olhar embaçado, dispensei a solidão e fechei a janela.

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Izildinha