Eu
havia saído do trabalho, cortei a Avenida e vinha a passos lentos caminhando.
O
frio cortante roçava meu rosto.
Imaginava
ter que encarar o chuveiro, depois de chegar.
A
lua no céu parecia brincar de esconde-esconde, entre as nuvens de algodão.
Sexta
Feira iniciando a todo vapor, percebia-se um burburinho no ar alegre das
pessoas, dos jovens que se preparavam para esticar o final de semana.
Eu
sempre amei meu canto, sempre senti que é muito bom, como pássaro no ninho, ter
para onde voltar.
De
repente, olho e logo á minha frente, no meio daquele tumulto todo, um amontoado
de recicláveis que destoavam do ar melódico e até um pouco sofisticado da sexta
que prenunciava o sábado.
Fiquei
olhando e vi um corpo, uma pessoa, um homem que fazia um esforço enorme para
empurrar aquele amontoado de coisas.
Comecei
a imaginar, onde ficaria o seu orgulho como pessoa,o seu amor próprio certamente, enfim,
à vontade de viver uma vida dessas, onde as misérias latentes, contundentes,
amarfanhavam sua visão de homem perante os transeuntes que por ali desfilavam.
Depois
que ele toca o carrinho mais á frente, vejo uma escrita em letras verdes e bem
fortes.
“Só
Deus Salva”
Fique
estarrecida e percebi na fortaleza ou no desespero, pode ser, de um homem que
está ali.ás voltas com a miséria.
De
um homem que sente as mesmas necessidades que os demais.
No
entanto parece que se encontrava numa geleira deserta caminhando para lugar
nenhum.
Ele
devia saber escrever, claro!
Ele
devia ter freqüentado uma escola.
Ele
devia ter sido um bebê que chorava no colo da mãe.
E
agora, lhe restava o lenitivo...
“Só
Deus Salva”
Senti-me
hipócrita, por não fazer nada, por tocar meu caminho em frente e na hora que a
água caia morna no corpo, parecendo lavar-me da culpa dos insensatos.
Da culpa daqueles que por ocuparem muito espaço, oprimem, lesam, malogram...
Da culpa daqueles que por ocuparem muito espaço, oprimem, lesam, malogram...
Senti
me consumista exacerbada talvez, mesmo vivendo na simplicidade.
Em
algum lugar pensei eu,essa balança desmedida que pesa os pertences de cada um
,neste mundo de Deus, sempre falha e muito.
Nessas
constantes desmedidas ,que oprimem, que jogam vidas ao vento onde
a
fome que grita ,em seu silêncio perante nosso olhar
Mas
mesmo assim ainda...
‘Só
Deus Salva”
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Obrigada pelo carinho!
Izildinha