E
olhando no rosto da enfermeira reconhecera aquela que me socorrera quando
tentara suicídio e que eu lera em seu pensamento, contemplar suicídio também.
Subitamente
eu olhara para meu filho rosadinho e sentira um perfume no ar, um perfume de
margaridas, eu perguntara á
enfermeira:
Vocês
passaram perfume nele?
Ela
me olhou demoradamente e disse:
Os
anjos são perfumados...
Nesse momento, minha consciência captara
tudo, e eu começara a chorar e implorar a Deus, que não me tirasse meu filho,
pois eu não teria estruturas para suportar.
Olhara
novamente para ele vira que ele estava morto...
E
ouvira uma voz clara e firme me dizer, que Deus me dera e também tirara de mim
aquele lindo bebê.
Então,
a minha experiência nesse momento se fizera presente, e eu me valera de toda
força e coragem que pudera existir no mundo.
Voltando
ao quarto, Renato estava ao meu lado, e também Maia,eu disse a eles, que a
nossa criança fora um anjo da guarda que ficara nove meses me protegendo para
que eu não me fosse, pois ainda eles precisavam de mim.
Eu
captara o entendimento, de que meu bebê, tivera voltado no colo de minha
querida Rafaela para aquele lugar maravilhoso, e que eu devera deixá-lo e
seguir meu caminho, agradecendo a Deus mais uma vez pela oportunidade, quando
tinha algo mais a realizar, e pessoas para ajudar.
Maia
com dezesseis anos vivenciara a perda do irmãozinho, portanto ficamos bastante
atentos para que ela aos poucos fosse entendendo esse fato, e que Gabriel
precisara voltar tão rapidamente, quando precisavam de muitos anjos no céu.
Voltando
nossa vida ao normal pouco a pouco,eu sempre procurara, em meus momentos
únicos, olhar o céu á noite e vislumbrar uma estrelinha a mais, quão grande
fora a gratidão por meu filho resistir bravamente para que eu não me fosse
juntamente.
Conversando
com Marcos, ele dissera jamais poder explicar uma gravidez como fora a minha,
quando no início, qualquer tentativa de retirar o óvulo, implicaria em grande
risco para mim, jamais entendera como o bebê se formara,
e que durante a cesariana meus órgãos
puderam se manter intactos.
As
pessoas geralmente, têm uma grande dificuldade em falar sobre perdas, e vão se
livrando o mais rápido possível de seus mortos, tocando a vida para frente, as
vezes não é por questão de esclarecimento, mas ninguém suporta mais ver ninguém
triste.
Renato
ficara muito mexido com a perda de nosso bebê, eu o vira triste noites e noites
quando eu acordava com seus movimentos, então, sempre acendera a luz e o vira
chorando.
Eu,
mesmo mais fortalecida pela experiência vivida, sentara ao seu lado e chorara
com ele, mesmo porque esse sentimento me tocara de tal forma, que me deixara ás
lágrimas também.
Renato
fora aquele anjo bom que surgira em minha vida com uma certa premeditação,
quando alguém me dissera:
Augusta,
doravante nunca mais vais chorar, por falta de amor...
Eu
não voltara de minha experiência como um ser perfeito, ilibado sem defeito
algum, voltara sim ,mais esclarecida, porém Renato fora aquele ponto forte que
demarcara o fim de uma história triste para dar margem e início para uma linda
história de amor e doação sem reservas.
Ele
viera de uma família admirável, embora constituída por poucas pessoas, que me
fizera perceber o quanto a qualidade fora sempre mais importante que a
quantidade.
Rafaela
também sempre vivera solitária no seu cantinho, portanto soubera doar amor como
ninguém.
Isso
me fizera pensar e vivenciar o oposto, quando multidões se reúnem
confraternizando, quando na verdade, o que permeia essas pessoas, nem sempre é
o amor verdadeiro.
Passáramos
nosso final de ano tranquilos em recolhimento com nossa filha, que agora uma
moça de dezesseis anos, soubera entender muito sobre a felicidade das
conquistas e também tinha bagagem suficiente para avaliar perdas.
Entendera
que vivemos num mundo perfeccionista, onde jamais pudéramos expor nossas
fraquezas e defeitos, sem que alguém nos venha com uma receita de felicidade em
forma de tranquilizantes ou coisa assim.
Renato
fora uma criança de internato adotada por Samuel e Celestina, quando se
encontraram já com uma certa idade e formaram uma família única e verdadeira,não pelo tempo que estiveram juntos,mas pela qualidade desta união.