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segunda-feira, 15 de junho de 2015

FRAGMENTO DO LIVRO_VOZ DE TROVÃO

E olhando no rosto da enfermeira reconhecera aquela que me socorrera quando tentara suicídio e que eu lera em seu pensamento, contemplar suicídio também.
Subitamente eu olhara para meu filho rosadinho e sentira um perfume no ar, um perfume de margaridas, eu perguntara á enfermeira:
Vocês passaram perfume nele?
Ela me olhou demoradamente e disse:
Os anjos são perfumados...
Nesse momento, minha consciência captara tudo, e eu começara a chorar e implorar a Deus, que não me tirasse meu filho, pois eu não teria estruturas para suportar.
Olhara novamente para ele vira que ele estava morto...
E ouvira uma voz clara e firme me dizer, que Deus me dera e também tirara de mim aquele lindo bebê.
Então, a minha experiência nesse momento se fizera presente, e eu me valera de toda força e coragem que pudera existir no mundo.
Voltando ao quarto, Renato estava ao meu lado, e também Maia,eu disse a eles, que a nossa criança fora um anjo da guarda que ficara nove meses me protegendo para que eu não me fosse, pois ainda eles precisavam de mim.
Eu captara o entendimento, de que meu bebê, tivera voltado no colo de minha querida Rafaela para aquele lugar maravilhoso, e que eu devera deixá-lo e seguir meu caminho, agradecendo a Deus mais uma vez pela oportunidade, quando tinha algo mais a realizar, e pessoas para ajudar.
Maia com dezesseis anos vivenciara a perda do irmãozinho, portanto ficamos bastante atentos para que ela aos poucos fosse entendendo esse fato, e que Gabriel precisara voltar tão rapidamente, quando precisavam de muitos anjos no céu.
Voltando nossa vida ao normal pouco a pouco,eu sempre procurara, em meus momentos únicos, olhar o céu á noite e vislumbrar uma estrelinha a mais, quão grande fora a gratidão por meu filho resistir bravamente para que eu não me fosse juntamente.
Conversando com Marcos, ele dissera jamais poder explicar uma gravidez como fora a minha, quando no início, qualquer tentativa de retirar o óvulo, implicaria em grande risco para mim, jamais entendera como o bebê se formara, e que durante a cesariana meus órgãos puderam se manter intactos.
As pessoas geralmente, têm uma grande dificuldade em falar sobre perdas, e vão se livrando o mais rápido possível de seus mortos, tocando a vida para frente, as vezes não é por questão de esclarecimento, mas ninguém suporta mais ver ninguém triste.
Renato ficara muito mexido com a perda de nosso bebê, eu o vira triste noites e noites quando eu acordava com seus movimentos, então, sempre acendera a luz e o vira chorando.
Eu, mesmo mais fortalecida pela experiência vivida, sentara ao seu lado e chorara com ele, mesmo porque esse sentimento me tocara de tal forma, que me deixara ás lágrimas também.
Renato fora aquele anjo bom que surgira em minha vida com uma certa premeditação, quando alguém me dissera:
Augusta, doravante nunca mais vais chorar, por falta de amor...
Eu não voltara de minha experiência como um ser perfeito, ilibado sem defeito algum, voltara sim ,mais esclarecida, porém Renato fora aquele ponto forte que demarcara o fim de uma história triste para dar margem e início para uma linda história de amor e doação sem reservas.
Ele viera de uma família admirável, embora constituída por poucas pessoas, que me fizera perceber o quanto a qualidade fora sempre mais importante que a quantidade.
Rafaela também sempre vivera solitária no seu cantinho, portanto soubera doar amor como ninguém.
Isso me fizera pensar e vivenciar o oposto, quando multidões se reúnem confraternizando, quando na verdade, o que permeia essas pessoas, nem sempre é o amor verdadeiro.
Passáramos nosso final de ano tranquilos em recolhimento com nossa filha, que agora uma moça de dezesseis anos, soubera entender muito sobre a felicidade das conquistas e também tinha bagagem suficiente para avaliar perdas.
Entendera que vivemos num mundo perfeccionista, onde jamais pudéramos expor nossas fraquezas e defeitos, sem que alguém nos venha com uma receita de felicidade em forma de tranquilizantes ou coisa assim.
Renato fora uma criança de internato adotada por Samuel e Celestina, quando se encontraram já com uma certa idade e formaram uma família única e verdadeira,não pelo tempo que estiveram juntos,mas pela qualidade desta união.