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terça-feira, 17 de março de 2015

FRAGMENTO DO LIVRO_VOZ DE TROVÃO


Rafaela fora um ser sem definição, em minha vida, ela fora colocando amor em todos os vãos vazios, de minha existência, fora como uma fada bordando e cerzindo, uma linda vestimenta de cetim rosado, para acobertar toda falta de amor.
Ela costurara ponto, por ponto, a esperança em minha vida, e todas as vezes, em que eu chorara, ela tivera um avental também bordado, com um cheiro característico de margaridas, para me enxugar o rosto.
Depois, colocava uma caneca de ágata pequena, em minhas mãos, cheia de café quentinho e adocicado, tão delicioso, como ninguém soubera fazer.
E quando eu mais calma, ela sentara ao meu lado, colocara sua mão de leve, em minha cabeça, e contava mil histórias, ás vezes ,foram histórias tristes, mas ela sempre dava um jeito, para um final feliz.
E em um quarto de hora, quando meu desespero estivera no auge, ela simplesmente, sempre me fizera sentir, a menina adolescente, mais feliz do mundo.
Entendera mais tarde então, que quem tem a felicidade, de encontrar uma Rafaela na vida, simplesmente pode ser mesmo, a pessoa mais feliz do mundo.
Concomitantemente, como era de costume ,depois do café, íamos para o quintal, onde ela  fizera o mais lindo jardim, cheio de canteiros de margaridas multicoloridas.
Eu nunca perguntara á Rafaela sobre sua vida, porque nem via necessidade, ela fora um livro, com uma página, sempre a ser lida, no momento certo.
Quando minha família viajava, eu dormira tranquila em sua casa, e nem tinha vontade que terminassem as férias.
Ela bordava chinelos de cetim, com pérolas coloridas, e eu tinha muitos deles, ela sempre me presenteara.
E aos domingos, ela tinha uma banca, numa feirinha de produtos artesanais, para expor e vender seus lindos chinelos de quarto, bordados delicadamente ,por mãos tão habilidosas.
A vida devia ser muito difícil para ela, sempre sozinha e nunca sequer tocara no nome de alguém, parece que Rafaela nunca sentira tristeza, saudade ,ou coisa assim...
Ela nunca pronunciara o nome de ninguém, jamais dissera se amara alguém, naquela época eu era apenas uma criança, depois uma adolescente precisando de seu amparo e nada tinha, para ampará-la.
Ela devera ficar sozinha em seus momentos.
E aos domingos, quando minha família estivera viajando,eu sempre fora com ela arrumar a banca lá na feirinha da praça de nosso bairro.
E ela tinha freguesas que atravessavam a cidade para comprar seus chinelos, ele eram perfeitos, verdadeiramente uma obra de arte.
Havia uma barraquinha de sorvete, bem do lado da barraquinha de Rafaela, que tinha apenas quatro sabores,morango,abacaxi,limão e framboesa,eram espumosos.
Nunca mais eu vira aquele tipo de sorvete, onde escolhíamos o sabor, e eles colocavam a casquinha de biju embaixo, e iam rodando até ficar todo impregnado no biju.
Nunca soubera se eu gostava mais do sorvete, ou da casquinha crocante de biju, e sorvete era uma preferência de Rafaela também, portanto nos regalávamos com sorvetes espumosos.
Os quinze ou vinte dias de férias na casa dela,me refaziam,me reequilibravam na vida,eu sentira uma sensação de felicidade, de ser amada, como jamais sentira em minha vida e isso era recíproco,eu pressentira, que ela devia sentir, o quanto eu a amava.
Durante a semana eu regava os canteiros, varria o quintal do fundo e ajudava ela na arrumação da casa, depois íamos passear nos calçadões do centro de São Paulo, era um tromba tromba, mas estando com ela, nada me chateara.
Ela ia na 25 de março, comprar os apetrechos quando faltavam para confeccionar os chinelos, nesse dia almoçávamos juntas, ela sem pressa, sempre fazia questão que eu escolhesse o meu prato favorito, então ela mandava vir dois, um para ela também.
Depois que ela se fora,eu mais crescida, entendera porque ela sempre agira assim, era um jeito de validar meus gostos, meus desejos, e na época isso me fizera muito bem.
Quando voltávamos para casa,vínhamos conversando e ás vezes ela era muito hilária e me fazia rir muito.
Nesses dias, voltávamos felizes e cansadas para casa e nosso jantar sempre fora um lanche, e nos jogávamos no sofá para ver televisão, onde acabáramos dormindo e eu acordava assustada, com ela me dizendo, para ir dormir no quarto.
No outro dia, quando eu acordava, e sentira o cheiro do café com leite,  e pão com manteiga, até hoje esse sabor ficara em minha memória.
Eu me voltara a essa figura maravilhosa, pois sem ela eu teria sofrido muito mais, porém ela me mostrara o lado bom e simples da vida.


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Izildinha