Quando sozinha em minha janela,
pudera contemplar, um lindo mistério se abrindo para minha adolescência,eu
ficara imaginando Amauri, o amor
impossível, que sem condições de acontecer, fora para outro lugar, outra
cidade.
Também sonhara com muitas coisas
fantasiosas, que nem sequer imaginaria acontecer, mas o sonho precisava dar
ênfase á minha vida, mesmo que fosse, apenas sonho.
A televisão exibira as garotas de
nosso bairro, tão lindas,
fotogênicas dançando
uma dança folclórica.
Eu olhara para aquelas meninas lindas,
vestidas de
princesas e quando tentava tatear o sonho, não o encontrava mais.
Os carros alegóricos ostentando a
beleza da juventude,
que
obviamente se preparava para uma feliz posteridade, enquanto o sol entardecia
silencioso em minha rua tão mixa e vazia.
Minha imaginação corria por um
trilho, que unia cidades longínquas, depois perpassava no meio da multidão
buscando um rosto jamais visto, porém tão conhecido.
Depois me recolhia em meu quarto,e
acordava no outro dia, sentindo que uma ficção qualquer, havia pernoitado em
minha cabeceira.
E as luzes do sol acendiam uma vida
mais lógica, onde uma rua inteira letargicamente se
punha a movimentar.
Era a luz fosca da padaria ainda acesa,
uma lâmpada mercúrio que nunca apagara, ou meu coração, que invariavelmente se
punha a esmiuçar detalhes ou resquícios da madrugada.
No percurso ao trabalho,
ouvia
as histórias de minha vizinha, também esquivara dos cachorros raivosos,
atravessando a rua depressa, enquanto o sol, garboso e imponente se punha
jogando seus raios na eira.
Era um sinal de novo dia!
Literalmente adorava o cheiro de
café com eleite,espalhado pelas esquinas, também o adocicado perfume das
docerias,onde as bombas recheadas de chocolate, estavam a espera de alguém
faminto e voraz.
Um pingado por favor!
E eu rapidamente me apressava a
servir o cliente.
Depois um sanduíche de pão com
mozzarella, depois dois filões, e o dia tinha começado para mim também.
Era uma fila interminável que
durava o dia inteiro desde o amanhecer até as dezoito horas, quando eu saia de
lá.
Os pães saiam quentinhos toda hora
e um funcionário colocava um cesto cheio deles, de vez em quando para serem
servidos.
Era uma fábrica manual que também
começara na madrugada e terminara na noite.
As novelas editadas e as
personagens quase sempre eram as mesmas, mas eu,mesmo tão ocupada, achava
algumas histórias bem interessantes a ponto de grafá-las, em minha casa, quando
tinha tempo.
Aquela padaria era tipo serve de tudo, na hora do almoço,
muitas pessoas faziam ali suas refeições, outras jamais abriam mão do pão
torrado na chapa com manteiga, e tínhamos um garoto ,que era
especialista no assunto.
E uma fila imensa também se formava
em frente a chapa quente, enquanto ele rapidamente tentava dar conta de tudo.
O nosso almoço era um tipo de
refeição meio rápida, onde apenas tínhamos tempo para deglutir um lanche
escovar os dentes e correr para abrandar as filas.
O dia passava rapidamente voando e
nem percebíamos, quando eram dezoito horas, uma sensação de dever cumprido me
envolvera sempre.
Então eu tinha uma noite para
apreciar e depois dormir.