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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

CLARICE_FRAGMENTO DO LIVRO_COMEÇO DE PRIMAVERA

Eu gostava muito de pegar o caderno de uma colega de classe, que tinha dificuldades, fazer sua tarefa, sem que a professora visse, depois mandar ela levar para corrigir.
Hoje entendo, o quão grave fora isso, mas naquela época, tendo pena dela, achara que estivera ajudando.
Eu gostava muito dela, era uma pequena nissei frágil, miúda, espalhafatosa e muito brincalhona.
Seu nome era Clarice.
Ainda tenho a Clarice na memória, seu tecido grosso da saia do uniforme fazia até barulho quando ela andava, e também carregava uma bolsa enorme com um estojo de lata, cheinho de lápis.
Ás vezes, ela passava cedinho na minha casa, espalhava todo material pelo chão, e fazia a lição de casa, enquanto eu tomava café e me vestia.
Ela levava uns bolinhos de feijão, feitos por sua avó que era uma delícia e sempre me dava um.
Eu adorava aqueles bolinhos!
Saíamos bem antes do horário, e íamos conversando, a escola não era nem muito longe nem tão perto, ficava numa distância mediana, na medida exata para conversarmos nossos assuntos de criança.
Ela tinha costume de ás vezes, andar depressa e depois rodopiava, e me esperava.
Clarice era minha melhor amiga, uma menina simples ,boníssima, sem maldade alguma.
Clarice não tinha pai nem mãe, nunca foi falado nada a respeito deles, tinha uma tia que cuidara dela e mais duas irmãs mais velhas que ela.
A tia dela se chamava Maria, uma japonesa também miúda, e muito falante.
Essa tia não tinha marido, embora bem jovem ainda, tinha um único filho, ainda bem criança chamado Akira.
Eu ouvira dizer, que o marido dela, quando moravam numa fazenda, fora caçar e houvera um acidente com a espingarda e o encontraram morto.
Sem tantas perguntas e tudo que importava para mim naquela época era a amizade da Clarice.
Aos domingos brincávamos juntas as tardes inteiras e era muito bom.
E amava a minha amiguinha, porém naquela época nunca me dera conta da intensidade desse amor, mas fora um amor que ela com sua bondade de menina, despertara em mim.
Lembro de um dia,eu já casada me encontrara com ela depois de ficarmos muito tempo sem nos ver e ela fizera a maior gritaria quando me vira, percebi que aquela criança  feliz e simples, ainda habitava nela.
E foram abraços apertados, beijos estalados!
Embora nunca mais a vira, meu coração reserva um espaço para aquela eterna amizade, quando o tempo cada vez mais mostrara sua pureza e generosidade.

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Obrigada pelo carinho!
Izildinha