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segunda-feira, 15 de junho de 2015

SINFONIA

As melodias eram suaves, chegavam aos sentidos devagar e vagavam entre o dormir e o despertar.Sonolenta ainda,abri os olhos e percebi que era de manhã.A melodia continuava, tão suave que chegava aos sentidos, antes que perpassasem os tímpanos.E chegava dando cor.Assemelhava-se a uma orquestra que brincava no ar.
Levantei devagarzinho,espiei pela fresta da janela, para me certificar, de onde vinha aquele assoviar sereno...De quem sabe como colocar virtude na arte, no querer bem á vida, num simples assoviar...E as músicas suaves,que se transformavam numa sinfonia encantadora.
Logo de imediato, não consegui ver nada.Mas como? De onde vinha?E continuava, terminando uma música, e começando outra.E seu gosto musical requintadíssimo, denotando alguém que conhecia o mundo das “artes” e o tinha delineado na palma da mão, ou nas notas musicais .
Empurrei um pouquinho a janela devagarzinho para não fazer barulho, e tudo que vi foi um desses carrinhos manuais, com os quais, os recicladores, catam seus materiais e vão empurrando pelas ruas afora aquele amontoado de papelões, plásticos, latinhas e outros...
Encostando um pouco mais, pude ver um homem, sentado tranqüilamente do lado do carrinho, e pasma verifiquei que, enquanto fazia o seu trabalho, no meio de sacos imundos de lixos que as pessoas colocam na rua.Ele exibia um talento inexplicável na maneira de assoviar suas melodias e também nas músicas escolhidas.
Que iam de Chopin,Mozart,englobando também em seu repertório, pérolas da MPB.Era intrigante isso.Pensei:-Como pode? Um simples catador de materiais recicláveis, ter um gosto tão apurado e saber elegantemente, assoviar melodias como ninguém....Mas em meio a tanta surpresa “amanhecendo junto com o dia...”.
A mensagem que ficou implícita...“Ser Humano”.Lembrei-me de um provérbio chinês sobre as “garças “que vivem no pântano.Lembrei-me também de Érico Veríssimo em”Olhai os Lírios dos Campos” .Veio-me á memória, trechos das cartas que Olívia deixou para Eugênio .E aí, a resposta para todas as minhas perguntas.
“Por isso vos digo: Não vos inquieteis quanto á vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem quanto ao .vosso corpo com o que haveis de vestir. Porventura não é o corpo mais do que o vestido e a vida mais do que o alimento?” Olhai para as aves do céu: “
Não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? Porque vos preocupais com o vestuário? “Olhai os Lírios que crescem no campo!”
Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
[Trecho do Sermão da Montanha]