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sexta-feira, 20 de abril de 2018

PULADA DE CERCA



Em minhas andanças pelas escolas como professora, posso dizer que nem tudo foram flores, mas houveram fatos que simplesmente superaram, todos e quaisquer sofrimentos.
Logo que me mudei  para a cidade de Ribeirão Preto, comecei a lecionar num bairro bem afastado chamado Marincek.
Eu cortava em pleno calorão a cidade de ponta a ponta, e depois atravessava a linha de trem que de tempo em tempo, abria e fechava
para os carros poderem cruzarem com segurança.
O diretor da escola,professor Valter, mineiro gente boa, era uma figura simpaticíssima e hilária também.
Quando ele passava nas salas para passar recados, até os alunos se divertiam com o jeito dele, mas o respeitavam muito.
A escola caminhava ás mil maravilhas, e era muito animado lecionar no período vespertino, que hoje já não existe mais.
Gostava daquele período fechado, porque eu não tinha que sair de casa antes do dia amanhecer, para chegar,quando todos já tinham ido dormir,pois um período assim,vai nos aniquilando tanto, que quando percebemos,nem mais amigos temos.
Pois bem,um diretor muito festeiro ,e qualquer comemoração era motivo para elaborar uma festa com a comunidade e tudo saia perfeito.
Escola muito simples, mas bem cuidada, uma merenda bem confeccionada para os alunos, que também pareciam felizes, não dando trabalho algum.
Quando tínhamos conselho de classe, entrávamos noite adentro até de madrugada, pois ele não permitia deixar nada para depois, e mediante o conselho ele sempre vivia alertando sobre a discrepância de notas tiradas pelos alunos.
Dizendo: - Olha a discrepância!
O professorado respeitava e gostava muito dele, o que não impedia de o acharem bastante hilário.
Bem, como toda escola que se presa, aquela também tinha uma fanfarra, que de fanfarra não tinha nada.
Quando saiam á rua para ensaiar, parecia o retumbar de trovões
anunciando uma grande tempestade.
Eu ficava explodindo por dentro de vontade de rir,mas por outro lado,feliz do lado da garotada, assim como o professorado todo.
Ele punha a fanfarra por último, e na frente, professores e alunos:
-Esquerda direita, esquerda direita, de vez em quando eu tinha uns disfarçados ataques de risos, mas no meio da multidão, suponho que ninguém percebia nada.
Foi num desses ensaios, e lá estava ele, não sei por que cargas d’água, pastando livremente, perto da cerca, mas numa ruela sem calçada e sem asfalto.
Um boi malhado, muito bonito, e quando viu a multidão, levantou as orelhas e mirou-as em direção ao povo.
Pensei comigo:- Agora o negócio é correr mesmo.
Mas não, ele olhou assustado com as orelhas em pé, deu meia volta volver, e saltou a cerca num salto ornamental, que nem triscaram os cascos no arame.
Depois saiu em disparada rumo contrário de onde estava a fanfarra, e desapareceu num átimo!
E a fanfarra continuou: Ta clam,ta clam, ta clam, era essa a sinfonia.
Foi um susto geral na hora, mas hoje me lembro, e rio muito dessa situação engraçada, que  fica grudada na memória como um pedacinho das grandes
felicidades que aparecem disfarçadas no decorrer da vida.
Foram tempos leves e soltos, tempos que foram capazes de deixar a felicidade explícita em momentos de risos, e na simplicidade de viver.
Uma escola sem dificuldades de aprendizado, direcionada por uma pessoa incrível, criativa, hilária, muito simples e competente também.